terça-feira, 19 de junho de 2012

Reflexões acerca de Kryptônia, de Zé Ramalho

     Quando falo do blog para conhecidos e amigos que ainda não conhecem esse meu projeto, sempre me "desafiam" a falar sobre Zé Ramalho, ainda que quem conheça saiba que o meu foco realmente é o Renato Russo. Zé Ramalho é um artista muito atuante por aqui e esse apego cultural justifica esse desejo pela compreensão de sua obra.
     Não vou dizer que é fácil entendê-lo. As músicas de Zé Ramalho nunca tratam apenas de uma coisa - acho até que música nenhuma é assim -, é tudo muito complexo. Mas se você não se restringir a um assunto apenas, é possível entender o que ele quis dizer na maioria das suas canções. E eu gosto de estudar o que ele tem a dizer.
     Um bloqueio criativo e uma forte crise existencial me fizeram parar bruscamente com o blog. Pensei seriamente em abandoná-lo, mas no dia 11 de maio (quando publiquei na fan page sobre este artigo) já sabia que isto não aconteceria. No entanto, não sabia como continuar e ainda não sei. Portanto, perdoem a falta de prática. Vamos de Kryptônia hoje.

     A minha visão sobre essa música é um tanto embaçada, mas a primeira impressão que tenho, tanto pela letra quanto pelo ritmo e pela melodia, é que a música trata da história da criação da Terra. Mas não é esse o atrativo principal da música. Não é de qualquer teoria que fala essa canção. A letra cria uma nova e surreal (embora faça muito sentido pra mim) teoria da criação.

  • O TÍTULO

     O título "Kryptônia", embora isso pareça muita surrealidade, deve fazer menção ao planeta de origem do Superman, Krypton. Seria um óbvio aportuguesamento do nome. Mas vocês, meus caros leitores, devem estar se perguntando: o que o Super-Homem tem em comum com a música?
     Não é tão simples responder essa questão. Mas saibam que o Superman nasceu em Krypton e, antes que esse planeta explodisse, foi enviado à Terra por seu pai. Quando Krypton explodiu, algumas partes suas chegaram à Terra em forma de asteroide, que traziam consigo pedaços de kryptonita (mineral que tem o poder de enfraquecer o Superman).
     A relação da canção com os quadrinhos está no fato de haver, na teoria mencionada na música, um personagem que, tal qual a kryptonita, chegou à Terra por meio de um asteroide. Mas vamos deixar isso pra um pouco adiante.


  • ZÉ E OS QUADRINHOS


     Zé Ramalho, para quem não sabe, é fã incontestável de quadrinhos.
     Seguindo a teoria de que Kryptônia exerce relação com o quadrinho do Superman, esta não seria a primeira vez que ele teria introduzido o fantástico mundo das HQs em suas composições. Um ano antes do lançamento do disco que contava com Kryptônia, Zé Ramalho lançou o LP Força Verde, causando muita polêmica com a faixa-título, praticamente idêntica a um poema de William Butler Yeats. O poema havia sido "usado como legenda para os quadrinhos de uma história no n.º 1 da revista O Incrível Huck, publicada no Brasil em 1972". O suposto plágio foi, inclusive, relatado numa entrevista da revista Veja.



  • A INTERPRETAÇÃO


     Mas, acreditem, tudo que foi descrito acima ainda não é nada perto do real sentido que Zé quis nos passar. Creiam, no entanto, também que vale a pena ler até o fim, apesar do enorme texto.
     Eu falava de um personagem que havia chegado à Terra por meio de um asteroide. E tenho pra mim que esse personagem seja o que possamos chamar de Diabo.
     Alguns de vocês devem estar confusos. "Espera aí, Thamirys, de onde você tira essas coisas esquisitas?", "Quer dizer que o Zé Ramalho é satanista?", "Ele escreveu uma música pro Diabo? Deve ser por isso faz tanto sucesso!...". Vejam o que me levou a considerar essa hipótese.
      A primeira coisa é saber que o Zé Ramalho não escreveu uma música para o Diabo, mas sim sobre ele. Portanto não é satanista (ao menos, não por isso). A segunda coisa é que eu disse que a música falava de uma nova teoria da criação da Terra. E é aí que o Diabo entra.
     Nós, por questões religiosas e culturais, temos mania de criticar o Diabo, de ofendê-lo, de considerá-lo ruim e do mal. Isso é muito natural. É então que o Diabo, no seu papel de um dos eu líricos, nos diz que isso não é certo. Ele diz:

Não admito que me fale assim.
Eu sou o seu décimo-sexto pai,
sou primogênito do teu avô, primeiro curandeiro,
alcoviteiro das mulheres que corriam sob teu nariz.

     Ele nos diz que não podemos falar mal dele e nos esclarece os motivos. Ao dizer que é o nosso décimo-sexto pai e, além disso, o primogênito do nosso avô, nos dá a entender que é um parente distante. Nos dá a entender também que é ele a origem de todos nós, visto que não define a quem fala, podendo ser o interlocutor qualquer uma das pessoas que o criticam.
     Ser o primeiro curandeiro está aí para enfatizar a fato do eu lírico ser o Diabo, visto que é um ato quase sempre associado ao ato de magia negra. Seria ele o primeiro a praticar tais atos. É ele também aquele que intermedeia a discórdia, o alcoviteiro.
      A pergunta cabível neste momento é por que o Diabo é a origem de tudo e todos.

Me deves respeito, pelo menos dinheiro.
Esse o cometa fulgurante que espatifou.
Um asteroide pequeno que todos chamam de Terra

      Pronto, responde-se a pergunta. Ao completar sua fala anterior, de que merece respeito, o Diabo diz o porquê de merecer. Ele é aquele cometa que espatifou e deu origem à Terra.
      Vemos nessa parte da música uma ligação à história do Superman. A kryptonita fazia mal aos habitantes de Krypton. O Diabo também era um mal para os céus, onde estava, se levado em consideração que era um anjo. Ambos vieram à Terra por meio de um asteroide.
      Mas, aqui, vocês podem ter a mesma dúvida que o Renato - pra quem não sabe, outro autor do blog - teve quando o contei da minha interpretação da música. Desde quando o Diabo veio à Terra por meio de um asteroide?
     Seguindo na linha de pensamento de que o Diabo era um anjo, por ser o pai da mentira e tentar igualar-se ou sobressair-se a Deus, caiu dos céus, que ficaria fora da Terra. Sendo assim, sua massa adquire velocidade, transforma-se em um asteroide que dá origem ao nosso planeta.
     Prestem atenção que a música não só designa o Diabo como o agente formador da Terra, mas também como ela própria.

De Kryptônia desce teu olhar
e quatro elos prendem tua mão.
Cala-te, boca... companheiro, vá embora, que má-criação!
De outro jeito não se dissimularia a suma criação
E foi o silêncio que habitou-se no meio 
Ele é o cometa fulgurante que espatifou
um asteroide pequeno que todos chamam de Terra

     Se antes quem "cantava" era o Diabo, agora a voz é de Deus. O Diabo transforma-se em unicamente interlocutor. O interessante nessa mudança de eu lírico é que muda também o modo como Zé canta a música.
     Kryptônia é o céu. É de lá que vem o Diabo. Deus o descreve, assim como descreve o momento em que foi expulso de seu reino e o momento em que ele espatifou, formando a Terra. Interessante como, nesse contexto, "má-criação" toma o sentido de, realmente, uma criação ruim.
     É esta a teoria de Zé. E o que mais me encanta é essa junção do criacionismo com o evolucionismo, bem como a crítica aos hipócritas que criticam o Diabo quando a culpa é unicamente sua.
     Enfim, é isso, por hoje é só.,

19 comentários:

  1. Essa não é uma teoria nova/original criada por Zé, quando fiz curso teológico fui "ensinado" sobre ela, que a propósito é muito boa. Enfim, achei muito legal quando vi que tinha post novo e muito mais legal por ser do Zé.
    Já não preciso mais falar que acho muito boas as interpetações. :P
    Parabéns!

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    1. Sério!? Que legal, Guilherme! Você sabe onde eu encontro mais sobre essa teoria ou outras que sigam o mesmo rumo? São coisas que eu adoro...
      E bem, obrigada pelo comentário, meu fiel leitor!

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    2. Não sei onde encontrar não, foi o professor do curso que citou e explicou. Também gosto muito dessas coisas.
      Boa noite.

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  2. já estava com saudade das publicações do site foi uma ótima interpretação e a musica é bem interessante apesar de que eu não costumo escutar Zé Ramalho espero que hajam novas publicações no site e principalmente que você supere os problemas que citou no inicio da postagem. beijos

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    1. Oi, Rafael!
      Obrigada, meu bem! Vou tentar agora não parar de publicar por tanto tempo.
      Beijos.

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  3. Thamirys, suas interpretações são sempre interessantes e espero que você possa continuar o projeto. É legal quando você interpreta músicas do Zé Ramalho, que são bem complexas, mas você sempre tem análises ótimas. Espero que venha a publicar mais sobre músicas dele. Admirável Gado Novo é uma boa. Vi no Face. Tudo de bom. Roberto.

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    1. Vish, Roberto Emanuel, o facebook tá me complicando!
      Mas, falando sério agora, eu pretendo, sim, escrever sobre Admirável Gado Novo, mas antes quero ler "Admirável Mundo Novo", o livro a qual a música faz referência. Vou ver se aproveito a greve do Instituto Federal em que estudo e leio pra pode postar sobre o Zé.
      Obrigada pelo comentário!

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  4. Parabens,suas interpretaçoes sao valiosas.

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  5. Parabéns Thamirys, vc é muito inteligente!abraçoo

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  6. Bela interpretação!! Parabens

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  7. Que bacana, se antes essa era a musica que eu mais gostava do Ze, agora e a musica que eu mais gosto de todas.

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  8. Muito, mas muito boa mesmo, essa interpretação. Faz mais sentido do que esperava...

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  9. Oi Thamirys.
    Adorei a interpretação, embora complexa tem sentido.
    Obrigado!
    Bjo.

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  10. Essa letra não tem mistério, nem é considerada de difícil interpretação. O problema é a mística que criam, e viajam sem nenhuma fundamentação...

    Corrigindo...
    A palavra “Kryptônia” provém do grego, kryptē, e do latim, crypta. Em geral, a palavra se refere a uma galeria sob uma igreja, santos e mártires eram enterrados em criptas.
    Na música, “Kryptônia” é a terra, uma cripta abaixo do céu para aquele que fora condenado por DEUS.

    Ao contrario do que disseram a música não fala necessariamente de Lúcifer, mas de outros anjos caídos, chamados de filhos de Deus em Gênesis 6.
    OUÇAM ‘Anjos Caídos ou A Construção do Caos’, de Cordel do Fogo Encantado.
    Essa é uma teoria antiga, escrita na Bíblia, não é nova nem tampouco criada por Zé Ramalho.

    Portanto quando Deus fala “… Eu sou o seu décimo-sexto pai, sou primogênito, do teu avô primeiro curandeiro…” ele explica que é um ser antigo da 16ª geração e o primeiro a ser gerado, também foi o 1° curandeiro, comprovando sua antiguidade.
    “…Alcoviteiro das mulheres que corriam sob teu nariz…” foi o criador do sexo feminino e em ‘Gênesis 6’, os caídos transaram com as mulheres e produziram gigantes que viveram na terra.

    “…me deves respeito, pelo menos dinheiro…” nesta parte o autor faz uma crítica aos religiosos que lhe tentam pagar os desrespeito de modo pecuniário.

    “…Esse é o cometa fulgurante que espatifou…” o ser que foi expulso para a terra caiu como um cometa, outra teoria da criação, no entanto essa é científica.

    “…De Kryptônia desce teu olhar, e quatro elos prendem tua mão…” agora aquele que caiu estar em Kryptônia (terra) e preso por quatro elos (os elos são, segundo a doutrina espirita, 1) vontade de ganhar e medo de perder, 2) busca do prazer e medo do desprazer, 3) busca da fama e medo da infâmia, 4) busca do elogio e medo da crítica).

    “…Cala-te boca companheiro, vá embora, que má-criação! De outro jeito não se dissimularia a suma criação…” expulsou o ser e diz que se ele não fosse expulso a criação não seria revelada como ela é. Essa parte é interessante por estar mais exposta na música do Cordel de Fogo Encantado, pois referisse à suma criação como a criação que ensinou a Deus a gostar do Homem, isso também é bem visto em Gênesis 6.

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  11. Muito bom! Estou fazendo um vídeo à respeito desta música, gostei da sua visão, a minha é bem parecida, porém ainda sim, acredito que Zé Ramalho esteja falando de que má criação se refere ao ciúme que Satan tem do ser humano!

    Seguem dois dos meu vídeos:

    Mensagem Subliminar - Zé Ramalho - A Terceira Lâmina
    http://www.youtube.com/watch?v=Y3SnXtVhDWg

    Mensagem Subliminar - Ivete Sangalo - Frisson
    http://www.youtube.com/watch?v=Y3SnXtVhDWg

    Bad Religion Channel - Open Your Eyes

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  12. sou primogênito do teu avô, primeiro curandeiro,

    no caso significa q ele eh filho primeiro de deus portanto nao seria a origem
    mas apenas uma linhagem q partiu de um fundamento , único
    o primeiro ser,a existir
    em uma analise teologica tido como deus, um ser com qualidades humanas
    e em analise biosociologica poderia tomar até a figura do elo perdido, o primeiro ser humano com caracteristicas definidas da especie, ou seja a verdadeira origem de todos nós

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  13. A música é ótima! Gostei da analise. Parabens

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  14. Nossa! Profunda reflexão. Quando ouvi a música pensei sobre o diabo e a criação,sobre a limitação humana, mas achei que tava forçando a 'minha mente fértil'. Vc conseguiu traduzir o que imaginei...Show de bola!!!!

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  15. no final da musica ouve-se uma palavra o que seria?

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