quarta-feira, 28 de março de 2012

Comida, do Titãs

     Retomando os trabalhos depois de tanto tempo sem publicar nada, volto com uma das músicas mais conhecidas do Titãs: Comida. Não foram só os óbvios pedidos em comentários que me fizeram recomeçar com ela, mas também a percepção de que muita gente encontra o blog ao pesquisar sobre essa música no Google. Resolvi retribuir as visitas.
     A letra é simples, ao estilo próprio do Titãs, mas a mensagem que se passa é muito importante. Enfim, vamos ao que interessa.

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?

     Há quem diga que o ser humano não necessita de nada além do pão e do vinho para sobreviver. Realmente, talvez não haja mais nenhuma necessidade física e básica além dessas para um homem. Mas e quanto às necessidades psicológicas? E quanto ao alimento da alma?
     Bebida e comida não são o bastante. Bebida e comida são o que necessitam uma vaca: água e pasto, nada mais. O homem necessita mais do que isso. O homem anseia mais, tem sede e fome de muitas outras coisas.

A gente não quer só comida,
a gente quer comida, diversão e arte.
A gente não quer só comida,
a gente quer saída para qualquer parte.

A gente não quer só comida,
a gente quer bebida, diversão, balé.
A gente não quer só comida,
a gente quer a vida como a vida quer.

     É, então, que o eu lírico nos segue dizendo o que ele realmente quer. Como já nos esclareceu, comida não é o suficiente (embora não seja dispensável). O ser humano, em sua visão, necessita também de arte, de cultura, de diversão. E, mais do que sair para onde quer, anseia liberdade; poder decidir sobre a própria vida.

A gente não quer só comer,
a gente quer comer e quer fazer amor.
A gente não quer só comer,
a gente quer prazer pra aliviar a dor.

     O interessante dessa estrofe nem é o seu significado em si, mas o modo que o autor utiliza para compô-la. Observe que "comida" é substituída por "comer" que, por sua vez, não mais apresenta sentido literal. Faz-se uma clara apologia à Revolução Sexual, principalmente na transferência dos anos 70 para os anos 80.
     Aqui, o eu lírico nos diz querer mais do que comer, nos diz querer fazer amor. Mas é bom notar que ele não dispensa o "comer", ele apenas agrega o "fazer amor". Não é apenas sexo por sexo (não na maioria das vezes).
     Interessante também é notar o perfil que se forma do jovem dos anos 80/90, repleto de dores psicológicas, lutando contra isso de todas as formas.

A gente não quer só dinheiro,
a gente quer dinheiro e felicidade.
A gente não quer só dinheiro,
a gente quer inteiro e não pela metade.

     Nesta estrofe resume-se a música. Não é só bebida, comida, sexo, dinheiro. Isso tudo é muito pouco. Quer-se isso, mas também os complementos necessários ao ser humano. Quer-se inteiro, e não pela metade! De que serve o dinheiro sem a felicidade? De que vale o sexo sem o amor? De que vale o alimento físico, se não se tem a alma alimentada?

Diversão e arte
para qualquer parte
diversão, balé
como a vida quer...
Desejo, necessidade, vontade
necessidade, desejo
necessidade, vontade
necessidade!

     Segue um complemento da estrofe anterior. Repete-se tudo aquilo que anseia o eu lírico. São desejos, vontades, são necessidades.

4 comentários:

  1. A música não seria referência ao estado soviético na década de 80? Naquela época o cenário político era conturbado tanto no exterior quanto no Brasil e as bandas tinham letras com alto teor político. Até onde sei, na década de 80 eles eram anarquistas e a principal crítica em relação ao socialismo era que o estado se torna opressor da sociedade. No meu entendimento, citando palavras que denominam a necessidade e depois contrastando com "saída para qualquer parte"; "diversão"; "balé" (referência ao balé bolchoi muito famoso pelo mundo afora) caracteriza o que se passava na união soviética (ou Cuba) e também um pouco da opressão no regime militar brasileiro.

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    1. Oi, Rafael!
      Eu não sei. Talvez seja. É uma relação que pode ser estabelecida.
      De qualquer forma, se há essa relação, o sentido não muda. Se há, é usada para referenciar o estado brasileiro, a juventude brasileira.
      Creio, realmente, que pode haver essa relação com o socialismo. A questão de não se dar à população apenas o que é necessário. Mas creio também que não era essa a intenção da música quando foi composta. Segundo uma ótica, a música adquire esse significado.
      Obrigada pelo comentário e pela perspicácia!

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  2. ola gente alguem pode me ajudar ? tenho um trabalho de artes e o prif pediu para que tirassemos foto de algo ou alguma situação que nos faça lembrar dessa musica alguem pode dizer doq eu posso tirar foto ???

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  3. A música ainda é contemporânea aos desejos dos jovens de 2013 e 2014. A música tem mais de 20 anos e os políticos e governantes ainda não entenderam o que os jovens querem. É o que testemunhamos nos "rolezinhos no shopping".
    Será que vão entender?

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