sábado, 29 de setembro de 2012

Rosa de Hiroshima

     Eu não sou, das pessoas, a que mais amo os ideais estadunidenses. Não sou do tipo que conhece a boa música "americana". Me detenho ao grunge do Nirvana, ao som do Dylan e a alguns cantores de country e folk. A culpa maior disso é a antipatia que criei perante a história desse país, e um dos acontecimentos que muito contribuiu para isso foi o bombardeamento às cidades de Hiroshima e Nagasaki.
     Também não sou do tipo que sabe tudo sobre a Segunda Guerra, tampouco estou aqui pra discutir história, políticas e governos. Mas quando, só em Hiroshima, estima-se que 80 mil civis morreram, algo tem de estar errado. É por números que, geralmente, se mede a força e a importância de um massacre, e 80 mil está longe de ser um número pequeno.
     No entanto, quando Vinícius de Morais escreveu Rosa de Hiroshima, mais tarde musicado por Gerson Conrad e interpretado pelos Secos & Molhados, não era dos mortos que ele estava falando. Pouco importa os mortos e o sofrimento que não tiveram tempo de sentir, quando ponderamos a dor de quem, não sei se felizmente ou infelizmente, sobreviveu.
     Não que eu ignore os mortos, não que eu não esteja dando a devida importância para as 80 mil pessoas que morreram inocentemente. Digo, porém, que sempre ignoramos os sobreviventes.
     Nas aulas de história, não nos ensinaram a pensar na dor de quem vive. Sejam as crianças, sejam as meninas, sejam as mulheres. É por isso, talvez, que Vinícius nos incita tanto a pensar neles. "Pensem nas crianças, mudas, telepáticas! Pensem nas meninas, cegas, inexatas! Pensem nas mulheres, rotas alteradas!" Pensem!
     A questão principal, creio eu, é nos remeter a essa dor, que a gente sabe que existiu, mas que não sente. Sabemos, sim, o que fizeram com o judeus na Alemanha Nazista; sabemos, sim, que duas bombas nucleares  foram lançadas no Japão e lamentamos muito por isso. Mas saber não nos sensibiliza, não nos conscientiza. É preciso que um poeta, O poeta, nos faça pensar, sentir, sentar e chorar essa dor - porque ela existe dentro de nós.
     É só, então, que pensamos na impotência de um povo perante a radiação, a dor, que irá ser passada de geração para geração. É quando pensamos no câncer que foi e causou uma aparentemente inofensiva nuvem em formato de rosa, e que não pode ser esquecido.

 

13 comentários:

  1. Adorei o texto...sim, realmente nunca pensamos nos sobreviventes que se arrependem de terem sobrevivido. A morte merece atenção, mas ás vezes rouba a atenção de quem ainda pode ser salvo.

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    1. Oi, Raphael!
      Fico feliz que tenha gostado. Escrevi assim, curtinho, fiquei receosa.
      Obrigada!

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  2. É, grande texto. Parabéns.

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  3. Essa música é simplesmente poética. Linda letra e numa voz perfeita. O legal é essa colocação que a letra nos trás da Segunda Guerra, ironizando o "pense". Como se eles fizessem e não tivessem noção do quão grave são seus atos.

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    1. Exatamente isso, Dudu! Tirastes as palavras do meu teclado! ;D

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  4. copo vazio, de gilberto gil, é uma bela canção a ser analisada ;)

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    1. Oi, Yuri!
      Desculpe a demora em responder...
      Bem, eu não conheço essa. Mas eu darei, sim, uma olhadela e verei se podemos por aqui no blog.
      Sugestões são sempre bem-vindas!
      Muito obrigada!

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  5. Grande texto. Curto, mas do tipo que nos toca la no fundo e nos faz pensar. Concordo plenamente com a idéia. Pretendo postá-lo no meu blog se permitir. Claro com os devidos créditos. Abraço e parabéns!

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    1. Billy,
      Obrigada! Olha, se você copiar o texto, vamos ter os dois problemas de indexação com o Google. Sei que a intenção é boa (que nem pensas em fazer como já fizeram alguns e não me dar o crédito pelo texto), fico muito agradecida e feliz com sua intenção. Mas vamos evitar problemas, ok?
      A propósito, se quiser deixar o link do seu blog, pode. Fiquei curiosa!

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    2. Entendo perfeitamente seu ponto. Realmente tem muito disso por ai. Bom, o blog esta aqui..
      http://sequelamusical.blogspot.com.br/
      Ainda está no comecinho, mas tenho de começar de algum lugar né. Beijos *--*

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    3. Ah, mas uma coisa.. Se não for abusar, eu gostaria de saber se você não conhece alguém que esteja disposto a entrar para o quadro de autores do meu blog. Tocar ele sozinho ta dificil por falta de tempo e não quero que ele fique desatualizado. Ajudaria bastante mais um autor até para diversificar. Bem, claro que isso tudo se não for incômodo para você. Enfim, desde já agradeço. Beijos!

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    4. Rapaz, taí uma coisa que eu gostaria de saber! O Interpretação Pessoal anda super fraquinho exatamente por falta de tempo. Mas se eu ficar sabendo de alguém que se interesse, pode deixar que eu te aviso.
      Mas andei lendo o teu blog e te dou uma dica: tenha foco! Pertença a um nicho, crie público.
      Beijos, Billy!

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    5. Obrigado querida. Fico muito grato pela sua atenção e pelas valiosas dicas. Continuarei procurando por autores.. Enfim, sucessos e beijos *--*

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